Testemunhos pessoais
A quem honra, honra!
Edgar Zanini Timm(2)
Texto lido pelo autor no Centro Universitário Metodista - IPA, na Solenidade de Outorga do Título de Doutor Honoris Causa ao Reverendo João Nelson Betts, em 02/10/2019.
A quem honra, honra. Escreveu o apóstolo Paulo em sua Carta aos Romanos.
De lá para cá, muita coisa aconteceu. O mundo mudou muito em sua geografia e em sua performance de humanidade: no século passado e nestas duas décadas que já vivemos no presente, filosofias, sociologias, políticas teologias, medicinas, cosmologias e tecnologias apresentaram seus avanços, mas que nem sempre ajudaram a tornar o ser humano mais feliz. Ainda continuamos a nos perguntar: Quando? Quando seremos felizes, com paz no coração, sem fome, sem violência e sem ódio... mais solidários, mais fraternos... mais humanos?!
Os 97 anos de idade do Reverendo João Nelson Betts foram consagrados a ajudar as pessoas a construir respostas concretas para essas questões existenciais. Questões que marcam profundamente a alma de todos nós e se estampam em nosso olhar a cada acontecimento que, perplexos, vivemos neste mundo.
Natural de Passo Fundo, RS, filho dos missionários Daniel Lander Betts e Francisca Betts, construiu sua vida familiar com a esposa Gladys Smith Betts e os filhos Cláudio, Daví, Jaime, Samuel e Dorita, alicerçado no espírito da família Cristã. E construiu sua vida pastoral, com os alicerces da Boa Nova de Cristo, na gestão, no magistério e no ministério eclesial.
Aluno do lE de Passo Fundo e do lnstituto União de Uruguaiana, filho querido destas duas instituições metodistas de educação, desde cedo foi educado a gostar de aprender e de ensinar, para além do púlpito. Chamado para o Ministério Pastoral, tornou-se Bacharel em Teologia em 1946. Nos Estados Unidos da América, no ano de 1947, tornou-se Bacharel em Divindade, pela Perkins School of Theology - SMU, na cidade de Dallas, no Texas; no ano de 1949, concluiu o Mestrado em Educação Cristã pela mesma instituição. No ano de 1952 foi ordenado Presbítero, na Região Eclesiástica do Sul, da lgreja Metodista no Brasil e, em 1955, nos EUA, atuou promovendo o trabalho Metodista no Brasil.
Com notável e elogiosa prática em diversas áreas de atuação da lgreja Metodista, em destaque para as áreas Pastoral, Social e Educacional (teológica, Cristã e secular) na gestão, no ensino e na pesquisa, sua vida Cristã na perspectiva Metodista tem sido marcada por relevantes momentos na história da lgreja Metodista, registrando-se de seu vasto currículo, que foi:
a) Secretário Regional de Educação Cristã (1953);
b) Professor de Educação Cristã na Faculdade de Teologia da lgreja Metodista, em Rudge Ramos, São Bernardo do Campo/SP (1957);
c) Assistente do Secretário Geral de Educação Cristã e orientador do Setor da Mocidade, em São Paulo/SP (1963);
d) Secretário Geral de Educação Cristã da lgreja Metodista do Brasil (1965 a 1970);
e) decisivo na história do Conselho Geral das Instituições Metodistas de Ensino-COGEIME, atual Instituto Metodista de Serviços Educacionais, em sua fundação na década de 1960, na condição de secretário da Junta Geral de Educação Cristã (JUGEC);
f) Professor de Educação Cristã no Instituto Teológico João Wesley, em Porto Alegre/RS (1972 a 1975);
g) Secretário Regional de Educação Cristã, no RS (1972 a 1981);
h) Inaugurador do Centro Comunitário Eduardo Jaime, da Igreja Metodista de Vila Jardim (1987);
i) Presidente do Conselho Diretor da Sociedade Metodista de Amparo a Infância - SOMAI (Creche e Jardim de Infância), no bairro Vila Jardim, em Porto Alegre, RS (1988 a 2010);
j) Organização da Rede de Comunicação Metodista (RCM) para registro, em vídeos, de acontecimentos históricos na II Região Eclesiástica (1989);
k) Editor do Vídeo Jornal da Rede de Comunicação Metodista (1991);
l) Aposentado do pastorado, com 43 anos de ativa dedicação ministerial (1993);
m) Membro do Grupo de Pesquisa da História do Metodismo no RS (GPHMRS/ITJW/IM/IIRE) (1999 - atual);
n) Ex-aluno destaque, condecorado com a distinção do "U" de Ouro, no Instituto União de Uruguaiana da Igreja Metodista (2011).
o) Atualmente, aos 97 anos de idade, continua sendo consultado em matéria de teologia, história e Educação Metodista, prestando assessoria e consultoria voluntárias as igrejas e instituições e participando de atos litúrgicos na Igreja Metodista.
A contribuição do Reverendo João Nelson Betts à memória da história do Metodismo e de suas instituições sociais e de Educação é altamente reconhecida no Estado e no País. Suas pesquisas, estudos e publicações, são referência para estudiosos nas áreas da teologia, história e Educação. Com idade avançada, doou grande parte de seu acervo histórico pessoal para a Faculdade de Teologia da Igreja Metodista - FATEO, encontrando-se atualmente esse patrimônio cultural registrado no setor que documenta a história metodista.
Mas desse patrimônio legado ao acervo histórico, o melhor continua conosco: a sua pessoa, a sua presença a nos esclarecer e iluminar com seu conhecimento de quase um século de vida, no momento que desejarmos. É só ligar para ele, visitá-lo, ou chamá-lo para uma reunião ou celebração.
A quem honra, honra, escreveu o apóstolo Paulo em sua Carta aos Romanos.
Ao nosso Reverendo Betts, a honra de um Doutor Honoris Causa, escreveu o Conselho Universitário e todos nós aqui testemunhamos na data de hoje.
(2) Professor do Centro Universitário Metodista - IPA, de Porto Alegre.
Doutor em Educação. Membro do Grupo de Pesquisa da História do Metodismo
no Rio Grande do Sul.
Algumas linhas sobre o reverendo Betts
Dalva Stracke(4)
Quando me solicitaram escrever algo sobre o Reverendo Betts logo me veio um pensamento sobre o significado de "Reverendo", pois eu assim o chamava. E essa palavra vem de reverenciar, ou seja, algo que merece respeito.
Pois bem.
É exatamente sobre isso que eu senti de escrever, sobre o respeito aquele homem por sua dedicação a fé, ao serviço, as pessoas. Também era marcante o jeito de falar, demonstrando uma serenidade, fruto, provavelmente, de uma conexão profunda com Deus. Também sempre me gerou admiração o fato de, mesmo com idade avançada, estar firme no convívio com os irmãos e sendo útil na medida de suas possibilidades.
Um exemplo de vida!
(4)Ex-membro do movimento jovem da Igreja Metodista de Cachoeira do Sul/RS. Membro da coordenação do Trabalho Regional da Mocidade - COTREM.
João Nelson Betts
Jussara Rotter Cavalheiro(5)
Estávamos na metade do ano de 1972 e eu abdicara da minha formatura no Curso Normal em Pelotas, a fim de rumar para Porto Alegre, ingressando como aluna no Instituto Metodista de Ensino Teológico, localizado no Instituto Porto Alegre. Carregava comigo a convicção de um Chamado capaz de vencer o apego e dependência para com a família e uma enorme timidez.
Ambiente simples e fraterno, reunindo um grupo pequeno entre direção, corpo docente e alunos/as. Conheci então o reverendo e professor de Educação Cristã João Nelson Betts, filho de missionários norte americanos (Daniel Lander Betts e Francisca Betts) e natural de Passo Fundo, também minha cidade natal. Cabelos brancos, olhar de pura simpatia e acolhimento, comunicação objetiva, didática, e nenhuma forma de descontração ou brincadeira. Sempre muito discreto, sem prescindir da disponibilidade para ouvir e ajudar. Na medida em que o tempo foi passando, os laços entre ele e seus alunos e alunas foram se fortalecendo.
Sendo pastor na Igreja Central de Porto Alegre (hoje Catedral), sempre que dispúnhamos de tempo para assistir aos cultos ou participar de uma atividade festiva, aproveitávamos em grupo a oportunidade. Éramos envolvidos nos momentos de sociabilidade com apresentações musicais e, com os demais jovens da igreja, desafiados a tarefa conjunta de reorganizar o ambiente após a festa.
Quando dos Ministeriais de Pastores, realizados anualmente no CRIM (Centro Regional da Igreja Metodista) em Santa Maria, os/as seminaristas eram convocados/as a participar. Acontecia de viajarmos na Kombi do reverendo Betts e lembro da nossa alegria em tais ocasiões.
No seminário conheci meu futuro esposo e no momento do noivado, foi o reverendo Betts quem abençoou nossas aliancas. Vinte e cinco anos depois seria ele a conduzir com os nossos filhos, a celebração das nossas Bodas de Prata.
O tempo passou e chegou o dia da nossa formatura em um Curso de Complementação da Faculdade de Teologia em São Paulo. Ela se daria nas regiões de origem dos alunos. A nossa foi no Culto de Abertura do Concílio Regional, realizado na Igreja Wesley, quando a época, era pastor o reverendo Betts. Fui a oradora e jamais esquecerei dele, o reverendo Betts cercando-me dos seus cuidados, preparando o púlpito e os microfones para a pequena e nervosa formanda.
Após peregrinação decorrente da itinerância pastoral, no episcopado do bispo lsac Aço fomos encorajados e recomendados para o Mestrado em Sao Paulo. Neste período, a guisa de sobrevivencia, assessorei a área geral na coordenação das Revistas de Escola Dominical, quando me foi dada a oportunidade de revisitar o acervo deixado pelo reverendo Betts como Secretário da Junta Geral de Educação Cristã no passado. Sempre me causou grande admiração a sua capacidade de lançar mão dos recursos audiovisuais e depois das tecnologias modernas, para realizar o seu trabalho e manter-se em atividade, independente do ser desafiado ou não. Muito ético, seguro de si, tranquilo e tolerante diante da realidade preocupante da igreja. As estatísticas preparadas por ele falavam por si.
Ao retornarmos, fui nomeada pelo então bispo Stanley da Silva Moraes, para a lgreja Vila Jardim em Porto Alegre, que havia estado sob a liderança do reverendo Betts por mais de dez anos. No domingo da minha posse lá estava ele com a querida dona Gladys, aguardando-me em companhia dos igualmente saudosos reverendo Walter Antunes Braga e Vilson Villanova. Foram cinco anos de uma convivência abençoada. Jamais senti-me ameaçada ou prejudicada pela presença de alguém que exercera tanta influência sobre aquela comunidade e gozava do maior respeito e carinho por parte dela. Foi amigo, conselheiro, parceiro, encorajador todo o tempo.
Sendo tão discreto, cuidadoso sempre com as palavras e opiniões, certa vez foi flagrado talvez, pela própria angústia de algo que lhe feria a alma, e comigo desabafou. Estava ele a mesa, em casa de um familiar ou parente e pediu para fazer uma oração, o que lhe foi negado. Doeu em mim ouvi-lo desabafar.
Quando na Vila Jardim, minha mãe precisou submeter-se a uma cirurgia cardíaca, causando-nos enquanto família, um estresse muito grande. Revezava-me com a filha Tábita, nos plantões hospitalares e, dona Gládis, sabendo disso, certa vez a carregou para casa oferecendo-lhe uma tarde de convivência e refrigério que renovaram suas forças.
Fica o privilégio de haver convivido com ele, aprendido dele. Muitas vezes o abracei e a dona Gládis, e disse que os amava. Lembrar deles me faz bem. Agradeço a Deus por suas vidas e oro pela querida que ainda permanece conosco.
(5) Pastora metodista aposentada
João e Gladys Betts: Vidas inspiradoras a serviço de Deus
Dorita Betts Borgerson(7)
Quando senti o chamado para o ministério pela primeira vez não tinha ideia de que estaria representando minha família como a quinta geração consecutiva a ter um pastor Metodista, ainda mais uma Pastora!
A jornada de meu chamado provavelmente começou quando nasci. Sem a menor dúvida, fui abençoada por ter pais incríveis, João e Gladys Betts, que representavam a fé cristã em casa - e em todos os outros lugares - e que me proporcionaram uma base cristã sólida. Refletindo sobre isso, consigo identificar alguns momentos decisivos que influenciaram a minha jornada até o ministério.
O primeiro momento foi em 1976 quando meus pais, que eram missionários apoiados pela Junta de Missões Globais, foram em viagem aos Estados Unidos visitar as igrejas que lhes davam o suporte financeiro, para compartilhar e testemunhar as boas novas sobre o trabalho que realizavam no Brasil.
Por três meses visitávamos uma igreja diferente a cada semana, onde meu pai pregava e após o culto tínhamos um almoço comunitário e ele então apresentava mais detalhes do trabalho com o uso de slides. Com 13 anos, eu prestava atenção às palavras de meu pai, e após ouvir o mesmo sermão umas 10 vezes, a mensagem começou a mexer com meu coração. Além disso, naquela viagem foi a primeira vez que estive em igrejas que faziam uma mensagem especial para as crianças, como parte do culto.
Isso incentivou minha imaginação e criatividade, tanto que quando voltamos ao Brasil marquei uma reunião para falar com meu pai, que era também meu pastor, sugerindo que nossa igreja, a Igreja Wesley em Porto Alegre, deveria iniciar um momento de mensagens para crianças como parte dos cultos. Ele olhou para mim calmamente e disse: "Parece ser uma boa ideia. O que você vai fazer a respeito?" Fui pega de surpresa! Inicialmente eu pensava que ele deveria fazer esta mensagem especial, mas fui inspirada por seu desafio
Comecei por criar um boneco de manipulação (será que alguém lembra da Debbie?). A combinação que tinha com meu pastor/pai era de que o boneco teria uma estória para contar e faria algumas perguntas ao pastor para ajudar a comunicar a essência da mensagem que seria pregada no culto. Aquela foi uma parceria maravilhosa entre nós!
Aquela foi uma parceria maravilhosa entre nós! Guardo com carinho a lembrança daqueles anos de aprendizado aos pés do mestre em Educação Cristã. Nossas conversas sempre iam além de apenas estar preparada para o domingo. Tivemos muitas discussões teológicas, que instigaram uma jovem em sua busca por espiritualidade.
Eu também fui inspirada por outra mestra, minha mãe Gladys Betts. Sua criatividade, seus recursos, visão e profunda espiritualidade também tiveram um efeito profundo em mim. Certamente isso foi verdade quando ela era minha professora de Escola Dominical e mais tarde, quando se tornou minha mentora quando eu, aos 16 anos, passei a ser também professora na Escola Dominical.
Quando chegou o momento de decidir sobre que carreira seguir, percebi que sentia o chamado de Deus a um ministério com foco na Educação Cristã. Esta decisão me levou aos Estados Unidos, onde cursei a faculdade e depois fiz mestrado, ambos cursos em Educação Cristã. Apesar de não ter retornado para servir a Deus através da Igreja Metodista do Brasil, tenho servido igrejas nos Estados Unidos já há 30 anos.
Sei que minha jornada foi muito influenciada pelo testemunho de meus pais, João e Gladys Betts, que me inspiraram ao longo de minha vida. E mesmo com o passar dos anos, continuo a aprender de suas experiências. Eles viveram Cristo, amaram Cristo, compartilharam Cristo e foram Cristo em tudo que fizeram, em todo o tempo, sempre inspirando outros a fazerem o mesmo, assim como eles viveram o chamado de servir a Deus.
Com profunda gratidão, ofereço esta passagem das Escrituras que para mim descreve e sintetiza as vidas de meus pais, João e Gladys Betts:
"Portanto, como eleitos de Deus, santos e amados, revistam-se de profunda compaixão, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem-se mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outra pessoa. Assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem também uns aos outros. Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição. Que a paz de Cristo seja o árbitro no coração de vocês, pois foi para essa paz que vocês foram chamados em um só corpo. E sejam agradecidos. Que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês. Instruam e aconselhem-se mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus com salmos, hinos e cânticos espirituais, com gratidão no coração. E tudo o que fizerem, seja em palavra, seja em ação, façam em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai." Colossenses 3:12-17 (Versão Nova Almeida Atualizada - SBB)
(7) Pastora metodista, filha de João Nelson Betts e Gladys Smith Betts.
Dorita é filha, neta, bisneta e trineta de pastores metodistas.
Um Metodista "Raiz"
O meu convívio com o rev. João Nelson Betts começou antes de eu passar a congregar na Igreja Metodista Vila Jardim. No carnaval de 1980 ele promoveu o Acampamento da Juventude Metodista, no Lar Metodista de Santa Maria. Essa experiência foi marcante para quem dela participou.
No meu imaginário o pastor era um senhor de terno e gravata dentro do templo dirigindo culto. Ao ver um pastor de camiseta, tênis, bermuda e boné, percebi que eu precisava rever meus conceitos. Pelo menos quanto a pastor metodista.
Ao vê-lo executando tarefas de acampamento, como cavar valetas, fincar estacas para o apoio de barracas, cortar vegetação para abertura de trilhas no mato, comecei a mudar meu paradigma sobre a figura do pastor metodista.
A noite os campistas se reuniam em torno de uma fogueira, na clareira preparada com esse propósito. Após louvor e oração, o rev. Betts tomava a palavra e falava sobre a importância de a fé se manifestar nas atitudes com relação ao outro, de cortesia, cooperação, consideração, convívio Cristão. Ele distribuiu os participantes em "famílias" com cinco ou seis integrantes, em que cada um tinha tarefas e papéis voltados para o bem comum.
As mensagens do rev. Betts eram simples, diretas e práticas. Tratavam sobre como a Bíblia orienta o crente na tomada de decisões e no viver no amor de Deus. Lembro de uma que tratava sobre a importância de cultivar pensamentos dentro do propósito de Deus para a vida. Dizia ele que cultivar pensamentos saudáveis gera decisões, palavras, atitudes e hábitos também saudáveis.
Também recordo de ele ter sido o primeiro pastor de quem ouvi que o amor não é um sentimento, uma emoção, mas é manifestado em ações em favor do próximo. E vivia conforme. Quando a irmã Lourdes Mineiro teve a casa avariada por um temporal, sem alarde o rev. Betts reuniu recursos próprios, arregimentou homens da Igreja Metodista Vila Jardim e reconstruiu a casa.
"Quero ser como Jesus no meu pensar, no meu falar, no meu agir, no meu sentir, no meu viver."
Quando meu pai estava procurando casa para alugar, ele, sabendo disso, imediatamente o chamou e ofereceu moradia - primeiro na extinta Igreja Metodista Daniel Betts; depois, na Vila Jardim. Também foi fiador do pai na casa em que moramos na rua Vasco da Gama, próximo ao lPA.
Por falar em Daniel Betts, destaco um fato que presenciei. Quando da decisão pelo encerramento da Igreja Metodista Daniel Betts, que homenageava seu pai, ele congregava na Vila Jardim. A liderança temia que fosse lamentar ou murmurar. Para surpresa de todos, ele expressou: "se ali não está dando frutos, deve ser fechada e, se der, reaberto o trabalho em outro lugar". E permaneceu impassível.
Da grande comissão de Jesus aos discípulos, o rev. Betts era destacado no quarto imperativo - ensinar a obedecer aos ensinos de Jesus. E inovava no uso dos recursos pedagógicos de sua geração. Dizia que a aprendizagem se processa "partindo do conhecido para o desconhecido".
Uma das suas características que me marcou - e lhe expressei isso algumas vezes - é que sabia motivar a liderança da igreja local de maneira sutil. Seu acompanhamento pastoral era imperceptível, porém próximo. Conhecia os dons nas pessoas e as abordava dessa forma. Orientava, acompanhava a distância e deixava cada um desenvolver seu dom a serviço da igreja e do Reino de Deus. Sem perder o foco.
Simples, próximo, dedicado a Igreja, o rev. Betts não embarcava em modismos teológicos, mantendo de forma serena e firme a linha metodista, e dando frutos nas igrejas e funções nas quais serviu. Sua forma de gestão sintetiza-se em: visão e realização.
Concluiu o edifício da Igreja Metodista Central de Porto Alegre, recompôs a congregação da Igreja Wesley e reconstruiu a Igreja Metodista Vila Jardim. Esta última foi sua grande realização pastoral, instituindo um local não somente de culto, mas de serviço a comunidade e promoção humana na carente Vila Bom Jesus. No seu pastorado funcionaram cursos profissionalizantes, reforço escolar, alcoólicos anónimos, neuróticos anónimos, reuniões da associação do bairro e outras iniciativas efetivas de ação social.
A propósito, um dia ele me disse, a sós: "Com as necessidades que temos aqui em volta, é um pecado a igreja funcionar dois dias na semana e ficar ociosa cinco dias".
Das tarefas pastorais que apreciava, uma delas era visitar as pessoas. Era uma oportunidade de se aproximar e conhecer melhor os membros. Conversava sobre qualquer assunto e se envolvia com as pessoas.
Em cada oportunidade que tinha, frisava a importância de tomar uma decisão séria por Jesus Cristo, sendo o seu 'slogan' marcante: Deus te ama; responde ao seu amor.
Para mim o rev. Betts encerra o que é ser metodista: postura, exemplo, coerência, testemunho, simplicidade, retidão, eficiência, frutos, integridade. Por isso o admiro.
(8)Ex-membro da Igreja Metodista na Vila Jardim e
da Federação Metodista de Homens da Segunda Região Eclesiástica.
Mulher Virtuosa
Vera Elisa Coelho Nunes(9)
Ao ensejo do transcurso dos 125 anos de Metodismo no Rio Grande do Sul, vem a nossa mente aquelas pessoas que foram as pioneiras da implantação do metodismo em terras gaúchas: missionários, pastores, leigos, diáconos e diaconisas, leigos e leigas que tinham como objetivo fazer conhecido o Evangelho e o amor salvífico de Cristo para todos e todas. Damos graças a Deus por todos aqueles que vieram antes de nós e que, num gesto de amor e de sacrifício, muitas vezes dedicaram suas vidas e a de seus familiares no esforço de vencer os desafios que se lhes apresentavam. Alguns mais jovens, outros mais idosos, mas todos mais do que vencedores pelo nome de Jesus. Muitas mulheres estiveram empenhadas na implantação do metodismo na Pátria Farroupilha, com grande espírito de luta. Faz-se necessário esse registro.
Precisamente sobre uma mulher metodista é que desejo lhes falar. Não uma mulher que já não está entre nós, que possamos considerar uma pioneira, nos primórdios do metodismo do Sul, mas uma mulher que ainda está entre nós, aos 95 anos de idade, e que dedicou toda sua vida à Igreja Metodista.
Essa gaúcha, nascida em Porto Alegre, RS, em 28 de setembro de 1925, é Gladys Smith Betts, ou simplesmente "dona Gladys".
Tendo concluído seus estudos na hoje FaTeo (Faculdade de Teologia da lgreja Metodista), ganhou uma bolsa de estudos para especialização em uma Universidade de Dallas, Texas (EUA), para onde também, dois anos depois, foi estudar o seu namorado, que deixara na FaTeo, o jovem João Nelson Betts. O namoro durou quatro anos. Então, em 28 de dezembro de 1947, casaram numa Igreja Metodista em Dallas. Em dezembro de 2020 completaram 73 anos de casamento. Tiveram cinco filhos: Cláudio, Daví, Jaime, Samuel e Dorita.
Gladys era irmã do bispo Wilbur Smith, que também serviu na 2ª Região
Eclesiástica, e nora de dona Francisca e do Rev. Daniel Lander Betts.
Ambos com o chamado vocacional de servir ao Senhor na Igreja Metodista, voltaram ao Brasil definitivamente em 1950, e, de pronto, engajaram-se na tarefa de evangelização em solo brasileiro.
Muitas vezes voltaram aos Estados Unidos para falar e apresentar projetos da Igreja Metodista no Brasil e conseguir recursos para viabilizar ações da Igreja capazes de conseguir bons frutos.
Muitos a conhecem pelos poemas e artigos, de grande inspiração, publicados na Voz Missionária. Gladys Betts sempre se destacou pela pedagogia do ensino bíblico, na Escola Dominical, nas Sociedades Metodistas de Mulheres, nas palestras para as quais foi convidada sempre com grande êxito.
Em 1993, por solicitação da Presidente da Confederação das Sociedades Metodistas de Mulheres, Célia Bretanha Junker Silva, foi destinado a Presidente da Federação da 2ª Região - Norma llka Borba - o preparo e a edição do Temário 1993, sob o lema "Jesus Cristo Forca Para Hoje - Esperança Para Amanhã". Para tal tarefa foi formada uma comissão composta por Atelaine Normann Ew, Elza Medeiros Goncalves, Gladys Betts e Vera Elisa Coelho Nunes. Para esse Temário, Dona Gladys preparou vários estudos bíblicos e devocionais.
Por todas as igrejas pelas quais passaram, Gladys sempre foi o braço forte do seu esposo, Rev. Betts, dando-lhe ânimo e força nos momentos difíceis, e o ajudando no pastoreio das comunidades.
Discreta, alegre, simples, sorridente, muito criativa, sempre disponível para qualquer programação, dinâmica, sempre pronta para dividir os seus saberes, muito rígida e zelosa das doutrinas metodistas. Gladys Betts, todas essas virtudes lhe conferem o título de "Mulher Virtuosa".
(9)Coordenadora Pastoral da Mulher da 2ª Região Eclesiástica.
Memorial de João Nelson Betts
Sérgio Marcus Pinto Lopes(10)
Não pensei duas vezes quando o Grupo de Pesquisa de História do
Metodismo no Rio Grande do Sul me honrou com o convite para que contribuísse de alguma forma na organização de um livro a ser publicado em memória e homenagem ao Rev. João Nelson Betts, então recentemente falecido. Como negar-me a assumir este privilégio e deixar de recordar com emoção um de meus mais notáveis professores na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista? João Nelson era, a par de sua competência profissional e sua vocação pastoral, um homem comprometido com o evangelho de Jesus, a quem ele sempre chamava "Cristo Jesus", e não ao revés, como normalmente se fala nas igrejas. Suas orações sempre terminavam com esta conclusão: "Em nome e no espírito de Cristo Jesus...". Aceitei o convite alegre e imediatamente!
Esta expressão – “e no espírito de...” (- era usada com grande convicção e com toda a propriedade por João Nelson porque expressava sua visão da religião e da teologia. Para ele, uma prece não encontrava o seu caminho para o Alto se fosse meramente feita em nome de Jesus. Aliás, existem muitas preces no Novo Testamento que nem usam este fecho! Tinha que ser feita no espírito do Cristo, enunciada e revestida do amor, que é a essência do evangelho. Era assim que ele compreendia sua fé e seu ministério pastoral e educacional.
Ingressei na Faculdade de Teologia em 1956, um ano antes que ele assumisse a cadeira de "Educação, Currículo e Meios Audiovisuais". Aquele meu primeiro ano foi de muita frustração e insegurança. Algumas disciplinas que eu então precisei cursar e alguns professores da Faculdade fizeram com que eu me perguntasse: será que devo estudar mesmo para ser pastor?
Ele chegou a Rudge Ramos, São Paulo, em 1957 acompanhado por sua esposa, D. Gladys, e trazendo já consigo seus filhos Claudio, Davi e Jaime. Os outros dois, Samuel e Dorita, viriam a nascer anos mais tarde. Com a família veio também D. May Smith, sua sogra. Eles foram instalados em uma parte do piso térreo do único prédio que a Faculdade então possuía, em cômodos adaptados para ser sua residência. No restante do andar havia outros espaços, inclusive a enfermaria onde eram atendidos os estudantes e uma ala da biblioteca. Haveriam de ficar por ali muito tempo.
Minha percepção do que deveria ser uma faculdade de teologia mudou radicalmente em pouco tempo. Ele era um professor acolhedor, uma pessoa que recebia os alunos como seus companheiros, disposto a partilhar o que sabia com carinho, aceitando-os como coparticipantes de uma experiência maravilhosa de Educação. Suas aulas eram cheias de calor humano. Ele fazia questão de narrar sua experiência como pai dos primeiros alunos que possuía, isto é, seus próprios filhos, a quem sempre se referia como meus garotos... E que paciência possuía! A reitoria havia separado alguns cômodos no andar superior e os havia transformado em uma pequena sala de oração, localizada bem em cima de algum quarto da família Betts. Nesta época, alguns alunos - entre os quais eu... - estavam passando por um período de ansiedade espiritual, promovida pela leitura de livros de autores carismáticos ou, avivalistas. Decidimos que em certos dias da semana, depois de terminadas as aulas noturnas ou o tempo de leitura na biblioteca, seria importante termos uma reunião de oração para buscar uma experiência religiosa mais intensa. Certa noite o grupo começou a orar já bem tarde, e fomos pela noite adentro, em voz muito alta, quase gritando mesmo, a suplicar ardorosamente pelo que pensávamos ser o Espírito Santo, sem nos darmos conta como ingênuos jovens que éramos que o tal batismo nada mais era que uma descarga emocional, decorrente de nossa excitação! Pobre João Nelson, pobre Gladys, pobres meninos! Foi necessária muita paciência da parte deles para enfrentarem este tempo de adaptação à vivência com os alunos de teologia, especialmente porque para o professor aquelas experiências nada tinham a ver com uma fé crista madura! No entanto, ele acolhia aqueles jovens em sua jornada de fé!
O novo professor tinha uma característica marcante. insistia sempre em que educação tinha a ver com a vida e não apenas com conhecimento intelectual. Por mais que este fosse fundamental era importante que promovesse mudança na vida das pessoas. Seu moto era: educar é ensinar a viver! Para promover a educação - ele dizia - é preciso partir da experiência das pessoas. Com habilidade ele conseguiu o apoio da congregação da Faculdade e pouco a pouco foi introduzindo mudanças no currículo do departamento de educação, tanto na lista das disciplinas como no conteúdo destas.
Lembrava frequentemente que as pessoas guardam apenas 10 por cento do que ouvem, 50 por cento do que veem, mas 90 por cento do que fazem. Por isso era preciso ampliar ao máximo a exposição dos estudantes a métodos que não ficassem apenas no uso dos sons, mas também da imagem e da experiência. Para ele, imagens não eram coisas acessórias, mas fundamentais, imprescindíveis. Ele gostava muito de fotografia e convenceu os alunos a explorarem este campo. Muitos destes economizaram o que podiam para poder comprar uma pequena câmera fotográfica. Ao lado desta, eles procuraram adquirir projetores de slides ou de filmes fixos para usarem nas igrejas onde passaram a cooperar como ajudantes de pastores. Betts conseguiu recursos para ajudar os alunos na compra destes equipamentos e os ensinava como usar este recurso eficientemente. Eles deviam aprender como preparar antecipadamente a sessão de projeção de modo a que ela não se transformasse somente em um cineminha evangélico, mas fosse realmente útil para convencer as pessoas acerca da mensagem que eles buscavam comunicar. Para garantir ao máximo esta eficiência ele lhes recomendava que era preciso providenciar antecipadamente um fio de extensão, uma lâmpada sobressalente para o caso de se queimar a original e planejar sobre qual parede fazer a projeção ou ter uma tela de pano branco ou plástico que acolhesse bem a imagem a ser projetada. Como professor de meios audiovisuais ele recomendava que tudo fosse programado anteriormente para que os equipamentos fossem bem utilizados.
Entre estes primeiros tempos em que ele foi meu professor - concluídos em 1960 - e o próximo período em que convivemos passaram-se cinco anos. Eu já estava exercendo o trabalho pastoral em Juiz de Fora, Estado de Minas Gerais, quando recebi seu inesperado convite para uma atividade para mim totalmente nova: assumir o papel de diretor de currículo de Educação Cristã na Igreja Metodista. Desde 1934 a Igreja havia adotado um conjunto de revistas publicadas pela Confederação Evangélica do Brasil como seu material de Educação religiosa. Estas traziam textos para o estudo dos alunos e materiais para orientar o ensino nas classes das escolas dominicais.
Em 1965, no entanto, insatisfeita com o currículo destas revistas - as quais, por serem simultaneamente utilizadas aos domingos por diferentes denominações, não podiam tratar questões vinculadas aos interesses metodistas - a Igreja decidiu em seu Concílio Geral desenvolver sua própria literatura. A responsabilidade desta tarefa foi atribuída a Junta Geral de Educação Cristã, um órgão então existente e que devia cuidar desse setor da missão da Igreja. João Nelson Betts, convidado pelo secretário geral da Junta, Rev. Charles Wesley Clay, ficou encarregado de organizar todo este esforço. Foi aí que ele me convocou para ajudá-lo neste imenso empreendimento. Eu nunca imaginava o quanto isto implicaria!
Ele começou do zero, pode-se dizer. Sua primeira tarefa foi criar um
currículo que acompanhasse os alunos da escola dominical desde a infância a maturidade. Ao longo deste período ele assumiu a secretaria geral da Junta e, com o auxílio de líderes da Igreja em praticamente todas as regiões eclesiásticas, selecionamos e organizamos uma grande equipe de professores e professoras, pastores e pastoras e leigos ou leigas, que nos quatro anos seguintes se reunia periodicamente para estruturar programas curriculares.
Participaram deste processo 92 pessoas, muitas das quais se envolveram também na posterior redação de cada um dos textos a serem estudados semanalmente pelos alunos e alunas. Toda esta dedicada gente formava uma espécie de grande orquestra da qual ele era o maestro principal a organizar a sinfonia em que se constituía o imenso e complexo currículo. Este compreendia a definição de objetivos gerais e específicos a serem perseguidos nas aulas da escola dominical, a seleção de temas bíblicos e teológicos, sua distribuição por semanas e meses de trabalho nos encontros programados e sua adequação a idade e desenvolvimento dos alunos e alunas. Incluía também a avaliação periódica de todo o trabalho. Então seguia-se a grande tarefa de redigir os textos a serem estudados a cada semana pelos alunos e alunas, as ilustrações a serem publicadas nas revistas e o material a ser oferecido como orientação e auxílio pedagógico aos professores e professoras das escolas dominicais. Por causa de seu grande tamanho é muito difícil explicitar o quanto tudo isto representava.
Com o imprescindível apoio das diretoras do setor das crianças e juvenis e dos responsáveis pelo setor de jovens e adultos o currículo foi sendo planejado e publicado pela Junta Geral em revistas e boletins de caráter periódico. Tivemos muito que aprender neste processo, pois embora tivéssemos uma boa e adequada formação acadêmica não tínhamos plena experiência que nos ajudasse e prometesse sucesso. Esta é uma longa história que deveria ser registrada detalhada e devidamente para reconhecimento do valor de cada uma destas muitas pessoas, o que infelizmente não cabe aqui.
Por quatro anos trabalhamos juntos. Foi uma experiência para mim inesquecível. Acompanhar João Nelson em uma jornada diária era algo imensamente rico. Ele nos encaminhava para muitos recantos do Brasil, onde realizávamos seminários para o preparo de obreiros e obreiras da escola dominical, de igreja em igreja, sempre recomendando providências ou fazendo sugestões para o aperfeiçoamento do trabalho. Naqueles tempos em que ainda não havia internet, João Nelson encontrou e recuperou um antigo projeto de preparação de professores e professoras por correspondência que já existia na Junta Geral e passou a imprimir seus textos em uma pequena máquina offset que comprou especialmente para isso. Centenas de pessoas de muitos recantos do Brasil foram alcançadas com este material. Além de estudar as lições, elas deveriam responder os questionários que as acompanhavam e devolvê-los a fim de serem corrigidos. Era de fato um curso de preparação para equipá-las ao trabalho educacional nas igrejas locais.
Ele não se abatia com algumas críticas que inevitavelmente recebia. Sabia sempre superar tudo com um espírito de amor e aceitação. Quando surgia alguma oportunidade de aperfeiçoamento da equipe ele incentivava as pessoas para que a aproveitassem da melhor forma possível. Por isso, ao receber o convite para o IV Instituto Mundial sobre Educação Cristã, que se realizaria em Nairóbi, Quênia, em meados de 1967, ele me chamou e perguntou. "Você quer ir em meu lugar?"
Perto do final deste período percebi que já se esgotavam os recursos e o preparo que possuía. Então o procurei e lhe narrei esta sensação. Ele sugeriu: "Por que você não faz um mestrado em Educação a fim de adquirir melhor capacitação?' Foi assim que ele me encaminhou a um programa de bolsas da Igreja Metodista Unida nos Estados Unidos, o Crusade Scholarship Program. Com o prestígio de sua recomendação, eu me candidatei a uma bolsa que me permitiu a matrícula no Garrett Theological Seminary (agora Garrett Evangelical), em Evanston, lllinois. Isto aconteceu em 1970. Que ironia da história! Graças a este afastamento da Junta Geral de Educação Cristã e das posições que ocupávamos, acabamos nos afastando um do outro.
Assim se findou o último período em que trabalhamos juntos, pois no ano seguinte, em decorrência de mudanças radicais na estrutura da Igreja Metodista no Brasil, ele acabou retornando ao Rio Grande do Sul. Assumiu então o pastorado da Igreja Metodista Central de Porto Alegre além das posições de professor de Educação Cristã no Instituto João Wesley e de secretário regional de Educação Cristã na 2ª Região Eclesiástica. Quando retornei ao Brasil em 1972 o meu querido e inesquecível professor já havia deixado São Paulo e voltado a seu estado natal.
João Nelson marcou uma época na vida da Igreja Metodista. Foram muitos os metodistas que se notabilizaram no campo da Educação brasileira e apenas citá-los seria uma tarefa grandiosa, tendo em vista a herança que deixaram pela criação de escolas e pelo papel que desempenharam em conselhos regionais de Educação e mesmo no Conselho Federal. Creio, no entanto, que poucos influenciaram tanto a Educação no espaço denominacional como João Nelson. Ele o fez tanto por sua atuação como professor na Faculdade de Teologia como por seu desempenho na Junta Geral de Educação Cristã.
Sua memória precisa ser registrada, honrada e reverenciada com todo o carinho.
(10)Presbítero aposentado da Igreja Metodista, Doutor em Educação, ex-vice reitor académico da Universidade Metodista de Piracicaba, ex-secretário regional para o Brasil do Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI).
João Nelson Betts
Nelson Luiz Campos Leite(11)
Em 1961 fui para a Faculdade de Teologia iniciar os estudos teológicos, vindo a conhecer uma grande quantidade de alunos e professores, bem como seus familiares. Conheci muitos professores e suas famílias, dentre eles João Nelson Betts, Dona Gladys, sua esposa e seus filhos. Tínhamos uma boa convivência com todos, sendo que, uma vez por mês, encontrávamos todos num evento comunitário chamado "Noite da Comunidade", na qual havia uma interação muito sadia entre todos e seus familiares. Era um momento descontraído tendo a participação de todos.
Nesse ambiente começamos a conhecer melhor os nossos professores e familiares. Uma das pessoas com quem me identifiquei desde o princípio foi o Rev. Betts. Ele lecionava Psicologia e Educação Cristã, matérias com que me identificava. Ele era amigo, cordial e estimulador. Os cursos dados por ele eram muito motivadores. Além disso, a sua didática e pedagogia eram bem adequadas, o que me levava a identificar com a sua pessoa e ensino. Como resultado iniciei um interesse grande pela psicologia e Educação Cristã, ao mesmo tempo que eu era valorizado e estimulado por ele.
Com o passar dos anos fui valorizando mais a pessoa do Rev. Betts e as matérias que ele lecionou. A Junta Geral de Educação Cristã tinha como seu grande condutor o Rev. Charles Wesley Clay, com quem também convivi, principalmente os seus filhos. Após um bom período, o Rev. Clay deixa a condução da Junta Geral de Educação Cristã, tendo sido nomeado para o seu lugar o Rev. João Nelson Betts. Ele passou a me incentivar mais no meu ministério, em especial na área de Educação Cristã. Desenvolveu e ampliou o Clube do Filme Fixo que destinava a enviar filme fixo as igrejas locais visando o desenvolvimento do Culto Infantil. Além disso, passou a produzir cursos através de filmes fixos destinados a formação de professores da Escola Dominical. Foi um período de crescimento da Escola Dominical. Usei muitos filmes fixos e realizei muitos cursos de professores para a Escola Dominical. Além disso estimulou o uso do Retroprojetor, levando-me a usá-lo no culto e na Escola Dominical.
A partir de 1967 a Junta Geral de Educação Cristã passou a produzir literatura para a Escola Dominical, deixando de usar as revistas da Confederação Evangélica e produzindo literatura a partir do Bem-Te-Vi, Flâmula Juvenil, Cruz de Malta e Em Marcha, além das revistas orientadoras para os Professores. Essa visão era fruto do ideal do Rev. Betts.
Era responsável pelo setor de produção das revistas, o colega e amigo Sérgio Marcus Pinto Lopes, que tinha como seu assistente o Rev. Hélerson Bastos Rodrigues, tudo sob a orientação do Rev. Betts.
Em 1970 Sérgio Marcus Pinto Lopes saiu para estudar no exterior. Eu estava pastoreando na cidade de São José dos Campos e recebi um convite para dar apoio ao ministério de publicação no qual o Pastor e Professor Hélerson Bastos Rodrigues era o responsável. Tinha certeza de que a minha indicação fora feita pelo Rev. Betts, que sempre me dizia que um dia eu atuaria na área de Educação Cristã. Fiquei oito anos trabalhando nessa área, deixando apenas quando fui eleito bispo em setembro de 1977.
Por ocasião da saída do Rev. Betts da Junta Geral e Educação Cristã fui chamado pelo então Bispo Almir dos Santos para assumir essa Junta. Sabia que aqui havia a indicação do Rev. Betts.
Por diversos motivos não vim a assumir na área Geral a Educação Cristã, mas vim assumir na Região no tempo do Bispo Alípio da Silva Lavoura.
O Rev. João Nelson Betts voltou a pastorear na Segunda Região Eclesiástica. Com ele convivi em Concílio Regionais e Gerais, nos quais era sempre delegado. A sua participação era sempre de moderação e equilíbrio. Lembro-me bem dele no Concílio Geral de 1982 quando foi aprovado o Plano Vida e Missão, para o qual fez várias propostas de conciliação temática.
Além de sua grande contribuição na área de Educação Cristã, vida familiar, produção de filmes, edição de livros, zelou pelo desenvolvimento das Sociedades, Federações e Confederações.
Na Segunda Região coletou dados e informações históricas, escreveu-as e produziu vídeos a respeito do seu desenvolvimento.
Formou uma linda família vindo a me relacionar com o seu filho Davi Betts, especialista em tecnologia de comunicação, criou e aperfeiçoou para os Concílios Regionais e Geral vários equipamentos, inclusive os de votação, eliminando longos processos de apuração. Temos uma bela convivência com o Davi e sua esposa Gláucia e de seus filhos. Conheci também o filho Claudio, médico no Panamá, a esposa e filhos.
Agradeço a Deus pela vida, família e ministério do Rev. João Nelson Betts que, hoje com 99 anos, ainda tem presença relevante na história da Igreja Metodista no Brasil. Louvo a Deus pela vida de sua esposa Gladys, que está com mais de 95 anos.
Reconheço em ambos e em seus familiares vidas "marcantes".
(11) Bispo Emérito da Igreja Metodista do Brasil
Professor João Nelson Betts
Norberto da Cunha Garin(12)
A década de 1970 foi emblemática para a minha vida. Em 1969, me despedi do Instituto Educacional, em Passo Fundo e rumei para a capital do Estado. Compareci ao Concílio Regional da Igreja Metodista com a solicitação de ser indicado ao ministério pastoral. Depois de passar por entrevistas em diversas comissões temporárias do conclave, fui aprovado para ingresso no então Instituto João Wesley (IJW), cujas instalações funcionavam no IPA. Tratava-se de uma instituição de preparo bíblico-teológico de excelência. A Faculdade de Teologia havia sido fechada por decisão do Concílio Geral e boa parte dos professores daquela casa de Teologia haviam se transferido para o IJW. No segundo semestre de 1969, matriculei-me na cadeira de Educação Cristã. No primeiro dia de aula, o diretor apresentou o professor titular recém-chegado de São Paulo: Prof. João Nelson Betts.
Desde as primeiras aulas, a ênfase esteve direcionada para a importância da comunicação audiovisual para a Educação Cristã. O Prof. João Nelson era uma pessoa que utilizava cotidianamente esses recursos e estimulava os estudantes a utilizá-los como auxílio da comunicação. Foi em suas aulas que tive contato com os slides, bem como alguns filmes 8 mm. O semestre foi entusiasmador, o que me levou a um trabalho de conclusão de curso ligado a eficiência da comunicação do Evangelho. Nossas conversas de recreio, compartilhadas entre professores e estudantes, giravam em torno das possibilidades de utilização dos meios visuais para melhorar a comunicação com as pessoas.
O tempo passou. Formei-me em 1972 e fui designado para algumas comunidades no interior do Rio Grande do Sul. Em 1976 quando retornei a Porto Alegre, o Prof. João Nelson, então Secretário Regional de Educação Cristã, me convidou para ministrar capacitação de História da Igreja nos onze distritos da Segunda Região Eclesiástica. Recebi dele a orientação necessária e um projetor de slides com os respectivos diapositivos para ministrar as aulas em diferentes cidades do Estado. Foi um projeto que durou dois anos e muitas lideranças foram capacitadas através desse programa idealizado por ele.
No decorrer dos anos seguintes, encontrei o Prof. Rev. João Nelson em diferentes ocasiões relacionadas a organização da Igreja Metodista. Foram concílios regionais, encontros de pastores e pastoras, entre outras oportunidades. Sempre que possível, conversávamos sobre a situação da Educação Cristão, especialmente da Escola Dominical, em nossa Igreja.
Em 1996, quando eu estava como diretor do Instituto Teológico João Wesley, sucedâneo do IJW, proporcionei o surgimento de um programa de pesquisa, que reunia um grupo de trabalho que ficou conhecido pelo nome, Grupo de Pesquisa de História do Metodismo no Rio Grande do Sul (GPHMRS), cuja identidade não mudou até os dias atuais. Abri a oportunidade para as pessoas que se sentissem vocacionadas a pesquisa de história se inscreverem para participar. Uma das primeiras foi o Prof. João Nelson.
Desde o primeiro momento foi um dos pesquisadores que mais contribuiu com materiais originais, fotos, narrativas e vídeos para o acervo do GPHMRS. As reuniões são mensais (agora prejudicadas pela Covid-19) e o Prof. João Nelson sempre esteve presente e participando ativamente. Em cada reunião, sistematicamente, havia um momento no qual ele abria a sua pasta de trabalho e apresentava cada documento que doava ao Grupo. Estas doações identificavam o cuidado e o carinho que ele tinha para com a história da nossa Igreja, no decorrer da sua trajetória.
Nos últimos tempos, em virtude da dificuldade de mobilidade motivada pela idade avançada, me dispus a dar-lhe uma carona, em meu carro, para ir e voltar ao lTJW, onde as reuniões se realizam. Nessas idas e vindas, conversávamos sobre nossas famílias e sobre a vida e a missão da Igreja. Foi uma convivência de que já agora sinto saudades. Sempre foram muito ricas de significado e de emoção.
Por diversas vezes recebi telefonemas dele solicitando algum dado, algum arquivo, ou mesmo alguma fotografia para ilustrar peças na sua pesquisa histórica. Acredito que o seu acervo é considerável e o GPHMRS deveria fazer contato com a família, no sentido de buscar mais alguns dados que ajudarão a compor o quebra-cabeça da trajetória rica da Igreja Metodista em solo gaúcho.
Representou uma honra para mim, ser indicado por ele para dirigir a sua cerimónia fúnebre e de ação de graças pela sua vida em 21 de julho de 2022, no recinto da Igreja Metodista Wesley, em Porto Alegre.
O Prof. Rev. João Nelson Betts deixa uma lacuna impreenchível na pesquisa da história da Igreja Metodista no Rio Grande do Sul.
(12) Graduado em Teologia (UMESP), Licenciado em Filosofia (UPF), Mestre e Doutor em Teologia (EST), ex-reitor e professor no Centro Universitário Metodista (IPA), pastor aposentado e membro do Concílio Regional da
Segunda Região Eclesiástica, integrante do GPHMRS.
João Nelson Betts, Uma Vida Missionária dedicada a Educação
Vera Elaine Marques Maciel (13)
Essa história acontece lá pelos idos de 1932, na longínqua Uruguaiana, no Estado do Rio Grande do Sul.
"Um jovem casal de missionários, assume a Igreja Metodista Central de Uruguaiana. O casal já tinha 3 filhos, dois meninos e uma menina.
Na igreja congregava um outro jovem casal que tinham duas filhas e a jovem esposa se encontrava gestante.
No dia 30 de junho de 1932, nasce o menino varão do jovem casal membro da igreja. Um menino que veio a este mundo de parto natural, pesando mais de 5 quilos. Era um meninão. Em virtude de a jovem parturiente ter sido atendida no seu parto, por parteira em casa, e esta era esposa do açougueiro perto de sua casa. As condições de pouca higienização e do parto ter sido difícil, a jovem parturiente contraiu uma infecção e não teve condições de amamentar seu bebe como era esperado.
A jovem esposa do pastor e missionário que se encontrava amamentando seu bebê, não se furtou em tomar para si a incumbência de dar de seu precioso leite materno para o menino que acabava de nascer. Essa sem dúvida era uma missão da qual ela entendeu como sendo evangelística e durante todo o tempo que a jovem mãe ficou se restabelecendo da infecção e sem poder alimentar seu bebê, a jovem missionária tomou para si a amamentação daquela criança que acabara de nascer. E contavam as testemunhas desse fato, inclusive o jovem casal, que nem o frio rigoroso da Fronteira Oeste, embalado pelo gélido minuano a impedia de estar a cada 3 horas pronta para a sua missão de ser por um período a "mãe de leite" daquele menino.
O casal de jovens missionários, Reverendo Daniel Lander Betts e Dona Francisca Betts, pais do Reverendo Joao Nelson Betts. O jovem casal de membros da igreja, Dorval Marques e Deolinda Carvalho Marques, meus avós paternos. O menino filho do casal João Nelson Marques, meu pai. Sim, meu pai recebeu o nome do filho mais velho do jovem casal, numa homenagem e reconhecimento pelo gesto de amor e desprendimento daquela que serviu literalmente a Deus enquanto viveu.
No ano de 1957 no mês de dezembro o Reverendo Daniel Lander Betts, batizou esta que escreve. Com 1 ano de idade fui batizada na Igreja Metodista Central, hoje Catedral de Porto Alegre."
Com esta introdução inicio o meu testemunho sobre a vida preciosa do Reverendo João Nelson Betts.
Na década de 70, o Reverendo João Nelson Betts, Dona Gladys e seus filhos e filha, assumiram o pastorado na Igreja Metodista Central de Porto Alegre. Foi um tempo de muitas alegrias e de outras não tão alegres, principalmente quando o bispo da época, transferiu o Reverendo João Nelson Betts para a Igreja Metodista da Glória.
Reverendo João Nelson Betts, foi um pastor que trouxe nos seus sermões, nos estudos bíblicos e na sua passagem pela igreja central, a marca indelével da Educação. Nos cultos dominicais apresentava as letras dos hinos e algumas imagens no seu tecnológico aparelho "retroprojetor" uma novidade que fazia brilhar os olhos dos mais jovens e "torcia" os narizes daqueles mais conservadores.
Reverendo João Nelson foi um pastor que olhou literalmente para os jovens e as crianças da igreja. Apoiado por sua esposa e companheira, ambos não descuidavam dessas duas faixas etárias, pois nestes recortes de idades encontravam-se seus filhos. Prova disso foi a grande mesa de "ping-pong" que passou a ocupar espaço no salão social da igreja e sempre a disposição para longas partidas depois dos cultos, estudos bíblicos e encontros da juventude. Dona Gladys assumiu diligentemente o "Primário B" da Escola Dominical, onde tive o privilégio de ser "professora" por 5 anos. Dona Gladys era criativa e incentivava eu e as outras jovens professoras a buscar toda e qualquer forma de tornar as aulas dos pequeninos, lúdicas e coloridas, pois assim fixariam melhor os conteúdos das histórias da Bíblia. Como havia morado nos Estados Unidos da América, trouxeram em sua bagagem novidades como os flanelógrafos com figuras fantásticas. Caixas de brinquedos e materiais que despertavam nas crianças um prazer muito grande para aquela época.
Neste período a Sociedade Metodista de Jovens - SMJ, era muito atuante e com um número expressivo de jovens participantes. Reverendo João Nelson não se descuidava dessa "turma" tanto que disponibilizava os espaços da igreja para qualquer encontro, desde jogos, sociais, reunião da SMJ, e até reuniões para que aquelas mentes brilhantes colocassem seus argumentos e opiniões em relação aos caminhos da Igreja Metodista. Para ele não tinha dia nem hora para nos atender. Sempre estava disponível para nos ouvir e nos acolher nas necessidades e nas "rebeldias" que apresentávamos. Reverendo João Nelson impingiu na juventude da época um sentimento muito forte de "servir ao próximo", pois foi das mãos e da "mão de obra" dos jovens da igreja que foi erguido o primeiro templo da missão Lomba do Pinheiro da Igreja Metodista Central. Depois que os dois engenheiros, membros da igreja fizeram toda a planta e prepararam o terreno, nós os jovens da igreja íamos todos os sábados para passar "piche" nos "mourões" de madeira. Fixá-los na terra e depois vinha toda a parte de serrar madeiras, levantar as paredes e colocar o telhado. Os meninos faziam esse trabalho de força e nós as meninas atendíamos a criançada que vinha para ver a gostosa "confusão". Essas jovens tardes de sábado eram regadas aos gostosos bolos que dona Gladys fazia e de sucos naturais, muitos deles eu passava a receitas, pois como estava cursando Técnico em Nutrição e Dietética no Ensino Médio, ensino profissionalizante, eu dividia com ela as receitas de como reaproveitar os alimentos em bolos e sucos. A maioria não apreciava muito, mas...
Aquelas tardes sempre terminavam, depois de todos e todas irem para casa, tomar banho e se arrumarem para "curtir" a noite de sábado, na casa do casal Betts, onde ficávamos relembrando o que aprontamos a tarde, jogando os jogos americanos que os filhos deles tinham, com um lanche recheado de sanduíches e refrigerantes. Vez e outra assistíamos um filme, pois a família tinha o equipamento ou então "slides" de fotos da família e da trajetória missionária do casal e família, pelo Brasil e USA.
Neste período do pastorado do Reverendo Betts, numa noite de julho, em um culto vespertino a igreja recebeu 17 novos membros, que realizaram sua profissão de fé. Foi um culto especial, pois o Reverendo João Nelson nos deixou participar da organização e da liturgia, inclusive permitindo que colocássemos os cânticos que nós os jovens cantávamos em nossos encontros e devocionais. Eu estava entre esses jovens. Pelo seu pai fui levada ao batismo. Pelas suas mãos e ensinamentos fui recebida como membro da igreja metodista e pelas suas queridas mãos tomei a primeira Santa Ceia. Os dois sacramentos que nós metodistas cremos, vieram na minha vida pelas mãos do pai e filho.
A família Betts, desde os progenitores do Reverendo João Nelson e depois através dele, marcou muito a minha família paterna e materna, pois meu tio materno e uma prima por parte de minha mãe, conheceram a Jesus através deste período abençoado do pastorado do Reverendo João Nelson Betts.
Concluindo, muito eu teria para escrever sobre esta preciosa vida que depois de jubilado do pastorado dedicou-se a pesquisar e registrar a história do metodismo no Rio Grande do Sul como em todo o país. No Grupo de Pesquisa e História do Metodismo no Rio Grande do Sul, do Instituto Teológico João Wesley, sua presença será perene, pois suas contribuições e suas arguições sempre trouxeram e deram as diretrizes para os registros dos acontecimentos nas diversas áreas da igreja. Sua vida e seu ministério é um dos maiores legados que a igreja possui. Neste ano do seu centenário, que possamos reverenciar não o homem João Nelson Betts, mas o servo de Deus que soube muito bem como construir as "pontes", para que muitos por elas passassem na construção do Reino de Deus.
(13)Coordenadora do GPHMRS. Presidente da Sociedade Metodista de Mulheres da 2ª RE. Professora do Centro Universitário Metodista IPA.
João Nelson e Gladys Betts
Rosa María Silveira Ramos(14)
Sou natural de Sant'Ana do Livramento, hoje congrego na igreja de Sapucaia do Sul. Fui membro da igreja central de Porto Alegre em 1974, e na igreja metodista da Glória, em 1975 e 1976.
Como eu morava em Teresópolis, descobri que havia uma igreja metodista no bairro ao lado, a poucas quadras de casa. E aprouve a Deus que, no domingo em que lá fomos visitar, o pastor Betts estava tomando posse como o novo pastor daquela igreja. Foi grande a minha alegria. Mudava de endereço, mas não de pastor. Em setembro de 1974, nasceu meu segundo filho, Lisandro Alex, que foi batizado em 06 de novembro, na Central, pelo Reverendo Betts.
Eu era nova convertida, havia aceitado a Jesus em marco de 1973, lá em Livramento, então Dona Gladys me discipulou com muito amor acerca do Evangelho, da doutrina e dos costumes da Igreja Metodista. Coisas que carrego comigo há 48 anos e que tenho o cuidado de praticar e transmitir a todos quantos Deus tem me confiado. Até hoje louvo ao Senhor pela vida daqueles amados pastores. E lhes tenho enorme carinho e gratidão.
(14)Membro da Igreja Metodista de Sapucaia do Sul
Vida que fala: Reverendo João Nelson Betts
"As boas lembranças são um retrato daquilo que juntamos ao longo da vida". (Dra. Ana Claudia Quintana Arantes)
Adriel de Souza Maia(15)
Com alegria registro neste memorial uma palavra sobre o testemunho de vida e missão do saudoso reverendo João Nelson Betts que faleceu no dia 19 de julho de 2022, na cidade de Porto Alegre - RS, no patamar do seu centenário de vida.
No florescer da minha adolescência/juventude nas décadas de 1960 e 1970, a presença do reverendo Betts era marcante, enquanto líder nacional na área de Educação Cristã, na Igreja Metodista em terras brasileiras. Sempre, uma presença inspiradora nos eventos promovidos pela Igreja e seus escritos profundos e de fácil compreensão por meio da metodologia utilizada.
A época para a juventude metodista brasileira, as lideranças nacionais constituíam um marco referencial de compromisso com os eixos balizadores da prática de vida e missão da Igreja Metodista. Nós, jovens, olhávamos para elas e para eles, com confiança e esperança nos caminhos da missão. Nesta direção, ouvíamos com muita ressonância: "A Igreja está em missão. A Igreja vive em missão".
Ainda dentro deste contexto - " A missão da Igreja Metodista é participar da ação de Deus no seu propósito de salvar o mundo. A Igreja Metodista cumpre a sua missão realizando o culto a Deus, pregando a sua Palavra, ministrando os sacramentos, promovendo a fraternidade e a disciplina cristãs e proporcionando a seus membros meios para alcançarem uma experiência crista progressiva, visando ao desempenho de seu testemunho no mundo" (Cânones da Igreja Metodista Art. 3).
O que mais me chamava atenção era o espírito de integração das áreas missionárias da Igreja, como por exemplo, a evangelização, Educação Cristã e ação social. Esse tripé metodista tinha um só propósito: promover a missão evangelizadora da Igreja e sociedade, a luz da totalidade da vida. O Evangelho anuncia a missão holística no contexto da plataforma de Jesus: " Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (João 10.10b).
Sendo assim, a Escola Dominical e os grupos societários eram organizações cheias de vigor, para o equipamento dos membros da Igreja no exercício dos dons e ministérios no cotidiano da vida em termos de testemunho, unidade e missão.
Trazendo a memória o reverendo João Nelson Betts - o que me impressionava era a sua facilidade de comunicação e sua criatividade pedagógica no uso de recursos modernos, para a capacitação do povo de Deus para a missão. O testemunho do zelo do reverendo Betts no ministério da Educação Cristã, abriu caminhos para a Igreja utilizar recursos modernos, a fim de que a mensagem do evangelho tornasse acessível e, especialmente, atualizada para atender as demandas de uma sociedade em processo permanente de mudanças de paradigmas.
Com absoluta certeza, o eixo do Reino de Deus não muda, no entanto, o modo de ser Igreja precisa ser adequado e relevante no contexto cultural do nosso povo.
Dou muitas graças a Deus pela vida do reverendo Betts, pelo seu testemunho cheio de vitalidade e seu legado deixado para muitas gerações.
Sim, ele transmitiu para a minha vida na juventude, no pastorado e no exercício do episcopado o carisma da graça de Deus no trabalho que realizou ao longo de sua vida com zelo, alegria e dedicação.
"Combati o bom combate, completei a corrida e guardei a fé" (2 Timóteo 4.7). Com gratidão e esperança no projeto do Reino de Deus.
(15)Bispo Emérito da Igreja Metodista
João Nelson Betts, Uma espiritualidade profunda: Lembranças do nosso convívio no Grupo de pesquisa da História do Metodismo no RS (16)
Edgar Zanini Timm(17)
Procurei sistematizar das minhas lembranças alguns traços do modo de ser do amigo e pastor de todos nós, Rev. João Nelson Betts. Sei que esses traços não são os únicos, pois que todos nós que convivemos com ele temos, pessoalmente, em nossas memórias da mente e do coração, de modo bem presente, aqueles que mais marcaram a cada um. Os traços que apresento a seguir são os traços por mim escolhidos para este escrito, no entanto, sei que eles podem também estar no elenco da memória de outras pessoas a respeito dele.
A consciência esclarecida de que Deus é tudo na vida. Esta compreensão de Deus, na perspectiva wesleyana, que constato nas suas palavras e textos, era plenamente encarnada, principalmente, em sua postura crista ético-existencial no mundo: na intimidade da sua relação com o Pai e no relacionamento com os irmãos de caminhada nesta vida. Ela era contagiante.
O coração e a mente tranquila de quem tem Jesus dentro de si e é guiado pelo Espírito Santo. Ter Jesus dentro de si e deixar-se guiar pelo Espírito, era, para ele - e para nós, que fortalecemos essa convicção no convívio que mantivemos - a condição evangélica verdadeira, na prática dos atos de piedade e das obras de misericórdia.
O olhar sereno de quem conhece a vida e nos ajuda a olhá-la. Um olhar pode falar mais do que mil palavras, porque um olhar nos diz, muitas vezes, aquilo que as palavras nem sempre conseguem transmitir. Um olhar pode, com o silêncio das palavras, se fazer ouvir também. O olhar do Rev. Betts era assim, porque ele, conhecedor da vida, nos ensinava a conhecê-la ao nos ajudar a bem olhá-la.
A calma na paciência pedagógica para só intervir no momento certo. Ele sabia da força das palavras, e que, ditas na hora certa, são como maçãs de ouro em salvas de prata. Por isso, sua paciência era pedagógica, ele dizia ou escrevia as suas palavras nos momentos certos, momentos nos quais elas eram necessárias de serem ouvidas ou lidas. Saber o momento certo de dizê-las para serem não somente ouvidas, mas escutadas com atenção, era mais um traço no modo de ser Cristão metodista do Rev. Betts. As suas, eram (e continuam sendo) palavras adequadas, necessárias, que brotam na medida certa, para expressar um conhecimento vivido e ainda vívido de quem participou, com esperança Cristã, na sua intimidade com o Pai e lado a lado com os irmãos, por um século, na construção cotidiana do Reino de Deus inaugurado por Jesus Cristo.
A humildade de se fazer pastor-irmão e professor-estudante. Não lhe faltavam títulos e reconhecimentos académicos e pastorais, por tudo o que realizou na perspectiva do Evangelho. Mas, principalmente, não lhe faltava humildade para, a exemplo do Cristo, se fazer pastor-irmão e professor-estudante na grande igreja-escola chamada vida. Ele alinhou-se àquilo que John Wesley disse orando ao Senhor: "Entrego-Te toda a minha posição e conceito social. Possa eu nunca valorizá-las a não ser em respeito a Ti, nem esforçar-me por mantê-las, a não ser enquanto prestarem a Ti serviço e avançarem a Tua honra no mundo". O que revela a encarnação do que se encontra no Salmo 115, versículo 1, por esses dois pregadores metodistas: "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade".
Uma espiritualidade profunda, sadia, construída e vivida na intimidade da comunhão com Deus e no relacionamento fraterno com todos. Este traço aparece como causa e também consequência de todos os outros. Porque, somente uma espiritualidade assim pode produzir tais características em uma pessoa; e somente tais características, por toda uma vida cuidadosamente cultivadas, possibilitam uma espiritualidade vivida com essa qualidade.
Muito obrigado, Rev. João Nelson Betts, por tudo o quanto nos ensinastes - e continuas nos ensinando, agora por tua memória, em cada lembrança saudosa que temos de ti. Não é uma lembrança triste, mas uma lembrança alegre, plena de gratidão a Deus, o Senhor da Vida, pela bênção que Ele nos concedeu de podermos compartilhar a existência contigo. Com o carinho, o respeito e a admiração de sempre, seu amigo e irmão Edgar Timm.
(16) Grupo de Pesquisa da História do Metodismo no Rio Grande do Sul (GPHMRS) do Instituto Teológico João Wesley (ITJW), da II Regiáo Eclesiástica da Igreja Metodista, reúne-se nas instalações do Instituto no Centro Universitário Metodista (IPA) em Porto Alegre, RS. O Grupo foi fundado em 1996, época na qual o Rev. Norberto da Cunha Garin era o diretor do Instituto.
(17) Coordenador de Pesquisa e Extensão no Centro Universitário Metodista (IPA).
Como o amor entre o meu pai e a minha mãe se espelhou ao longo das nossas vidas de geração em geração
Claude Daniel Betts(18)
Quando meu pai morreu aos 99 anos de idade, eu senti uma enorme perda. Já não poderia conversar com ele e relembrar com ele tantas experiências bonitas que vivemos juntos. De poder dizer ao meu pai o quanto eu e a Carmen (minha namorada há mais de 50 anos) aprendemos com ele e com a sua companheira de vida, minha mãe, nesta fantástica jornada dos últimos 73 anos de vida até agora.
Mas passado aquele momento de tristeza e solidão, lembrei-me que os ensinos dele continuam vivos no meu coração. Com o meu pai e a minha mãe eu aprendi coisas muito importantes. Uma delas é a importância de ter uma companheira para toda a vida e que isso não tem preço.
A acolhida que eles deram para a Carmen nos demonstrou o quanto era importante, para o meu pai e a minha mãe, manter laços estreitos de aceitação dos novos membros que estariam ingressando na nossa família a partir daquele momento.
Hoje nossa família estendida já está se aproximando a 50 integrantes ao longo de 4 gerações. Mas isso não é só uma questão quantitativa, é especialmente qualitativa. Existe muita solidariedade, união, fraternidade, muita alegria, e principalmente um grande amor ao próximo e a busca de construir um mundo melhor para todos, que se estende à sociedade em seu conjunto.
A melhor homenagem que podemos fazer todos aqueles que fomos tocados de uma forma ou outra pelas vidas do João Nelson e da Gladys Betts ao longo de quase um século, é dedicar cada uma das nossas vidas ao serviço do bem comum, contribuindo a fazer o nosso mundo, um lugar melhor, com mais equidade, saúde e bem-estar para todos.
Nas palavras do meu pai: "Para Mim o Viver é Cristo"
(18) Médico Epidemiologista - filho primogênito do homenageado

Linha de esplendor Atos: 2: 11-12
Luiz Vergílio Batista da Rosa(19)
Um livro clássico da História do Metodismo em seus primórdios missionários, é conhecido por nós como "Linha de Esplendor Sem Fim". A expressão Linha, é tomada no sentido de uma caminhada, de uma peregrinação, a luz do Evangelho, e, que perpassa a vida das pessoas, seu contexto social e histórico, num caminho contínuo e intenso, ligando o passado, o presente e o futuro.
Esta peregrinação é um Ato de fé, que deixa uma esteira de luz, conjugado com o ato de esperança, que nunca tem fim.
Assim, muitas das marcas da identidade da lgreja Cristã, e do ministério pastoral, é a pregação da Palavra e do Ensino da Palavra, ou, da Educação Cristã.
A Palavra de Deus é fonte de vida; é construtora de realidades. O Ensino da Palavra é a fonte de construção dos valores da Fé, bem como de iluminação de nosso caminho existencial. A palavra induz a inspiração necessária a salvação. O Ensino conduz a transformação do caráter Cristão, bem como da realidade.
É neste contexto que situo a vida e a missão do Rev. João Nelson Betts. Filho do casal de missionários da lgreja Metodista Unida, dos Estados Unidos da América, Daniel e Francisca Betts, que vieram ao Brasil, e ao RS, na senda deste movimento missionário do final do Séc. 19 e nas primeiras décadas do Séc. 20, e, de cuja fonte, todos e todas nós, atuais gerações metodistas, bebemos e nutrimos a nossa vida com Cristo e na comunhão do povo de Deus.
Tantos missionários e missionárias, com suas famílias ou sozinhas, vieram para nosso Estado para a Pregação da Palavra e para o Ensino, atingindo milhares de vidas, ao longo destes 135 anos de metodismo gaúcho e brasileiro.
O Rev. João Nelson Betts é representativo desta visão missionária, considerando o mundo como paróquia, se constitui em nosso último Rev. Missionário, representante desta Linha de Esplendor Sem Fim.
Foi pregador do Evangelho, foi educador Cristão, que pastoreou igrejas, contribui para a formação teológica de pastores e pastoras; sempre comprometido com a visão de um Evangelho para a integralidade da vida.
Tive o privilégio de tê-lo como professor no lnstituto Teológico João Wesley, e aprender os fundamentos para a Educação Cristã na lgreja. Primava por um ensino que fosse eficiente e eficaz, na vida de cada metodista, com a valorização da Escola Dominical, com metodologia e práticas pedagógicas que gerassem interesse, motivação e prazer em conhecer as Escrituras Sagradas. Ele estimulava seus alunos à leitura e a disciplina Cristã, pois, tanto a pregação quanto o estudo devem tocar a alma humana; produzir questionamentos, que nos levem a busca por respostas, gera transformações.
No primeiro sermão do pós Pentecostes, o apóstolo Pedro, movido pelo Espírito Santo, traz palavras que transformam a vida de milhares de pessoas. Mas o que é significativo no texto, é o fato de que o encontro das pessoas suscitou indagações da alma humana: Que faremos? Sim, há muito que fazer, muito a caminhar, mas a história do Rev. João Nelson nos deixa uma senda luminosa, de sua vida Cristã, como pastor, como educador.
Sabemos que Ele completou sua carreira, combateu o bom combate e guardou a fé. Está com o Senhor. Missão cumprida!
Manifestamos nossa gratidão a Deus pela vida do Rev. João Nelson Betts e sua família. Pelo seu legado de fé e de serviço a Deus e a Igreja Metodista.
(19 )Bispo da 2a Região Eclesiástica da Igreja Metodista
Presidente do Colégio Episcopal da Igreja Metodista no Brasil
Impressões de uma visita
Amélia Tavares(20)
Uma das coisas que alegram muito nosso coração, na redação da Voz Missionária é recebermos visitas de irmãs de outras regiões. Os encontros do Centro Otília Chaves eram sempre esperados com alegria porque sabíamos que receberíamos visitas de irmãos de outras regiões. Esse contato é sempre muito enriquecedor.
Mas havia uma visita muito especial, a cada período de férias, era da irmã Gladys Smith Betts, amiga, parceira e eventual escritora da Voz Missionária. Sempre que estava em São Paulo, na casa de seu filho Davi Betts, D. Gladys fazia questão de visitar a redação da revista e sua visita era muito especial, porque a gente sentia o amor da irmã Gladys pela Voz Missionária; Algumas vezes, seu filho Daví Betts a conduzia a redação e, outras vezes, ela vinha acompanhada pelo Rev. João Nelson Betts.
Aquele pastor de fala gentil, rosto sorridente, acompanhava D. Gladys na sua visita a redação da Voz e sua visita não era uma visita apressada, de ficar de olho no relógio. Não, ele participava da conversa e interessava-se pelas coisas concernentes a Voz Missionária. Hoje, avaliando aquele tempo, algumas coisas vêm a nossa mente:
1. O amor e cuidado do Rev. João Nelson Betts pela sua esposa. Tanto tempo passou, mas ele mantinha o mesmo amor e cuidado pela esposa, a ponto de acompanhá-la na sua visita a Voz Missionária. Aqui vemos que o amor é alimentado pelo cuidado e carinho para com a pessoa amada. Ele poderia ficar em casa, gozando da companhia do filho e netos, mas ele preferia acompanhar a esposa.
2. Seu espírito gentil. Chegando a redação, ele não mantinha-se distante ou ficava preocupado com o relógio, mas participava da conversa e fazia algumas intervenções. Sua presença conosco era sempre muito especial.
3. Seu amor pelas coisas da Igreja. Ela ouvia nossas conversas sobre a revista, como as coisas estavam caminhando, expressando seu amor pelas coisas concernentes a Igreja Metodista.
A pandemia roubou este contato, distanciou até nós, funcionários da redação. Nos últimos anos, não recebemos as visitas deste querido casal e ficamos com este gosto de boa lembrança e muita saudade. Obrigada pelo seu tempo, carinho, cuidado e boas lembranças, Rev. João Nelson Betts. Obrigada D. Gladys por seu amor constante pela Voz Missionária.
(20) Pastora metodista, editora da Revista Voz Missionária
Além de Pastor, um educador e aprendente vitalício!
Daví Nelson Betts(21)
Meu pai, João Nelson Betts, foi Pastor, mas quero destacar um outro dom dele: o de Educador. Quando eu tinha meus dois anos de idade ele era pastor em São Gabriel e em Rosário do Sul, que visitava de motocicleta.
Como a estrada era de terra, era preciso desmontar as engrenagens da moto mensalmente para limpeza. Ele observou que eu ficava fascinado o vê-lo desmontar a motocicleta. Então ele me mostrou pacientemente como limpar as peças e organizá-las lado a lado na ordem em que desmontava. Rapidamente eu assimilei o processo e à medida que ele ia remontando a motocicleta eu já me antecipava e entregava a próxima peça na ordem correta. Posso dizer que entre os dois e três anos de vida recebi minhas primeiras "aulas" de metodologia e processo.
Apenas um exemplo das muitas situações em que ele me encorajou para aprender fora da rotina da "Educação formal", que abriram os horizontes para a minha caminhada de vida.
Desde cedo me ensinou o básico de carpintaria, eletricidade, comunicação audiovisual e tecnologia, só para citar alguns, e acima de tudo, de valores como solidariedade e um olhar de cuidado para com o próximo.
A Educação sempre teve forte presença em seu ministério, seja na educação religiosa, seja na educação secular e na formação de obreiros para a igreja. Tinha um olhar especial para a infância e juventude. Ele gostava de compartilhar o que sabia com as pessoas e também gostava de aprender coisas novas. Era um inovador! Um exemplo que durou toda sua vida.
Quando comprou o primeiro computador, seus netos o ajudaram a desvendar os “mistérios” dos botões e aprender a criar, editar e salvar suas produções, na forma impressa e no seu site na internet (metodismorgs. com).
Aos 99 anos, com a visão já bastante enfraquecida, ainda usava o computador para produzir os resultados de suas pesquisas sobre o Metodismo no Rio Grande do Sul.
Como Pastor e Educador ele acreditava que EDUCAR É ENSINAR A VIVER!
(21)Gestor de tecnologia educacional - filho do homenageado


Como viver 100 anos
Vânia Kratz Mendes(22)
Esta foi a primeira frase que li, na Voz Missionária (out/nov/dez 1963) - A Missionária Layona Glenn dava uma entrevista para Ottilia de Oliveira Chaves. Minha mãe Nilza Covolo Kratz era agente desta Revista.
A exemplo do Rev. João Nelson Betts, missionárias e missionários americanos deixam marcas indeléveis na Terra Brasilis, legando um testemunho de fidelidade a sua vocação, cientes de que Deus os chamou para ser "missionários até o fim"!
Não tive o privilégio de ser pastoreada pelo Rev. Betts, mas o conheci de formas distintas: através de sua filha Dorita, jovem bonita e atenciosa, divertida e acolhedora, que fazia com que nós, do interior, nos sentíssemos em casa quando na Capital Gaúcha, em encontros da juventude!
Encontrei Rev. Betts em atividades da Segunda Região Eclesiástica, pois fazia parte da liderança da COTREM - Coordenação do Trabalho Regional da Mocidade, no período em que as Federações estavam "fechadas"; posteriormente, da Federação Metodista de Jovens - Ele era sempre jovem, na sua visão, nas suas palavras de encorajamento, nas suas atitudes dinâmicas e práticas!
Também sabia mais dele por meio dos textos e poesias de sua esposa, Gladys Smith Betts, publicadas por décadas na Voz Missionária. Mulher virtuosa: "o coração do seu marido confia nela!" (Pv.31.11-a).
Menciono igualmente a oportunidade de conviver com seu filho Daví Betts, quando estive na Presidência da Confederação Metodista de Jovens, nas reuniões na Chácara Flora e na Faculdade de Teologia, em São Bernardo do Campo, SP.
Jesus disse, em João 8.19-b "Se conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai.
Vendo Daví colocando seus talentos a serviço da Igreja, sempre atencioso, rápido e prestativo, com uma vivência Cristã exemplar, vemos Rev. Betts, sem menosprezar seus outros irmãos.
Da mesma forma, pude ouvir reações de felicidade por parte de irmãs e irmãos que foram convidadas e convidados a escrever sobre suas vivências com Rev. Betts, tais como: Ele foi um Pastor e tanto: esteve comigo, orando e fortalecendo minha fé quando do nascimento do meu filho, num momento de fragilidade física, dizendo: Vai ficar tudo bem e vais criar este menino, para alegria tua e de teu esposo.
Outra breve lembrança do Professor e Pastor João Nelson Betts, no Instituto Teológico João Wesley, em Porto Alegre, narrado por uma aluna, hoje Pastora, dizendo que seu Mestre conhecia muito bem seus alunos, assim como a maneira como se expressavam por escrito.
Decorridos alguns anos, casada com um Pastor, fez uma compilação de receitas usando remédios caseiros... Não apareceu seu nome... Quando encontrou o Professor Betts, ouviu dele uma "advertência": por que não colocaram teu nome naquela publicação? Reconheci tua forma de redigir!
Este é o Pastor que está sendo homenageado, para ser conhecido e lembrado pelas gerações futuras!
Cresci ouvindo meu pai Valto Kratz dizer que almejava viver muitos anos e que sempre obedeceu o mandamento que tinha uma promessa: " Honra a teu pai e a tua mãe, como o Senhor, teu Deus, te ordenou, para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que o Senhor, teu Deus, te dá." (Dt.5.16)
Certamente Rev. Betts honrou seus pais, pois chegou a viver dez décadas (ou quase!), sendo uma benção abençoadora!
Noutra edição da Voz Missionária, (jan/fev/mar 1968), encontramos uma meditação da missionária Layona Glenn, 101 anos, ao ser condecorada em um Congresso Nacional das Senhoras Metodistas Americanas.
Conhecendo de longe e de perto o Rev. João Nelson Betts, posso dizer que tais palavras condizem com ele, sempre nos fazendo refletir e fazer a opção segundo os ensinamentos de Cristo.
" Meditação de Layona Glenn, ao completar cem anos"
Cem anos é muito tempo no calendário da vida de qualquer pessoa, e admiro-me quando considero quantos anos Deus me tem concedido, partilhando com Ele dessa sua preciosa dádiva ao homem.
Tao importante considera ele o tempo que o distribui somente segundo por segundo; e todas as coisas, todas as criaturas neste globo terrestre, são forçadas a compartilhar do mesmo segundo.
O rei no trono não recebe mais do que o prisioneiro no cárcere. Ao milionário no palacete não é dado mais do que ao mendigo na rua. O cientista não recebe mais do que o menos culto. A alma mais generosa que existe não pode oferecê-lo - pois o tempo não pode ser comprado nem vendido.
O avarento não consegue amontoá-lo. O químico no laboratório não tem mais tempo do que o menino soltando sua pandorga. O passarinho embalando-se no galho duma árvore tem tanto quanto o fazendeiro que semeia o seu campo ou segue o seu arado. O reitor da maior universidade tem que dividi-lo com o nativo da selva. O evangelista mais notável, com o pecador mais vil. O homem sábio com o palhaço do circo.
Esse minuto é seu – é meu. O que faremos com ele?
Só há uma resposta: usá-lo ou desperdiçá-lo.
Qual a nossa escolha?"
Com minha gratidão a Deus pela vida do Rev. Betts e sua Família!
(22)Agente Regional da Voz Missionária –
Federação Metodista de Mulheres - 2ª Região Eclesiástica
Vivências com o Rev. Betts
Silvio Goncalves Mota(23)
Cresci na Igreja Metodista em Sant'Ana do Livramento, na Segunda Região Eclesiástica, sempre participando dos encontros e capacitações promovidas pela igreja. Muito cedo conheci o trabalho pioneiro e visionário do Rev. Betts na área da comunicação, gravando em VHS a vida da igreja na Segunda Região e posteriormente produzindo os vídeos jornais.
Quando tomei a decisão de seguir o chamado vocacional ao pastorado, já estava casado e com dois filhos pequenos, Mariana, com 3 anos e Felipe com 3 meses. Nesta composição familiar fomos para São Bernardo do Campo cursar Teologia na FATEO. Foi um tempo precioso, porém com muitas dificuldades e desafios. Deus colocou muitos anjos para nos amparar neste período, dentre os quais estavam Daví Betts e Gláucia, filho e nora do Rev. Betts, grandes incentivadores não apenas no ministério pastoral, mas também na área do desenho.
Ao retornar a Região, em 2006, pastoreei 2 igrejas no período de 12 anos, sendo depois nomeado, em 2018, para pastorear a Igreja Metodista Wesley, em Porto Alegre. Neste tempo tive o privilégio de ser pastor do Rev. Betts e da irmã Gladys, retomando o contato com o filho Daví e conhecendo melhor a família. Era uma grande alegria ver o casal entrando de mãos dadas pela porta do templo, sentando no banco e participando ativamente de todos os momentos do culto. Ao final de cada celebração, meu coração pensava em segredo "Te prepara para receber uma correção da pregação quando fores cumprimentar o Rev. Betts", porém, isso nunca aconteceu. Alguns conselhos para dinamizar a liturgia, sim! E isso foi muito bom por meio do carinho que ele sempre demonstrou por todos/as.
Com as dificuldades de saúde da irmã Gladys já não puderam mais frequentar juntos aos cultos e raras vezes o Rev. Betts foi sozinho. Nas visitas pastorais em sua residência nunca saí de mãos vazias. Sempre era colocado a par das suas últimas pesquisas e, na saída, lá estava uma pastinha preparada com cópias dos seus trabalhos, os quais guardo com muito carinho, bem ao lado da mesa do gabinete pastoral. Muitos deles foram utilizados nas mensagens ou celebrações especiais.
Finalizo meu testemunho com uma cena que mexeu profundamente comigo, me levando a uma séria reflexão de vida. Na ocasião do aniversário de 99 anos do Rev. Betts, fui visitá-lo. Como de costume, me mostrou seu mais recente trabalho, uma pesquisa sobre a vida dos pastores e pastoras da Segunda Região Eclesiástica. Era 1º de dezembro de 2021, ainda em pandemia, e diante dos meus olhos lá estava aquele senhor de 99 anos sentado na frente de um computador, abrindo pastas, procurando arquivos, mandando imprimir... Em instantes minha mente pensou mil e uma coisas em segundos!
Como pastor acompanhei muitas pessoas bem mais jovens do que o Rev. Betts que resistiam em usar as tecnologias de comunicação atuais, muitas vezes reclamando que era difícil aprender ou tinham medo de usar.
Pedi permissão para registrar a cena e usar a foto para mostrar que a idade não é impedimento de nada, e sim, a postura do coração diante da vida.
Cada vez que um desafio novo surge, lembro daquela imagem do Rev. Betts, no auge dos seus 99 anos, brigando com aquela máquina que insistia em esconder seus arquivos diante dos seus olhos cansados.
Ele venceu e eu saí abençoado mais uma vez.
Pedi permissão para registrar a cena e usar a foto para mostrar que a idade não é impedimento de nada, e sim, a postura do coração diante da vida.
Cada vez que um desafio novo surge, lembro daquela imagem do Rev. Betts, no auge dos seus 99 anos, brigando com aquela máquina que insistia em esconder seus arquivos diante dos seus olhos cansados.
Ele venceu e eu saí abençoado mais uma vez.
(23 )Silvio Gonçalves Mota - Pastor Metodista


Meu herói
Anita Betts Way (24)
Meu irmão João Nelson, foi sempre meu herói. Não me lembro dele jamais ter perdido a paciência comigo, mesmo com a diferença de idade, (como crianças exigem atenção, e incomodam os irmãos mais velhos.). Ele sempre entendeu e me ajudou reconhecer que o que eu queria não era oportuno. E me dava um abraço, e “tudo passava “. Até quando mamãe faleceu ele estava recebendo nossos amigos lá na porta da igreja Wesley, e eu estava sentada lá na frente chorando.
Quando começou a cerimônia ele veio, colocou o braço nos meus ombros e falou: “vamos sentir muitas saudades, mas agora podemos nos alegrar porque mamãe está com Jesus “.
(24) Anita Betts Way - Irmã do homenageado

Um batismo "de emergência"
Vera Lúcia dos Santos Diogo(25)
Eu nasci em 1956, em Santana do Livramento. O pastor Betts foi nomeado para lá meio emergencialmente, ele estava em São Gabriel ou Alegrete, por ali. Aconteceu uma coisa com o pastor da minha cidade, ele teve que sair, então mandaram o Rev. Betts para lá. Nesse meio tempo, em novembro, eu nasci, prematura. Naquela época, se achava que a criança prematura poderia não durar, podia morrer "paga", alguma coisa assim. Então, fizeram um culto de emergência e me apresentaram, eu tinha uns dez dias.
Encontrei com ele muito anos depois, num retiro de mulheres que a Lorena organizou, ali no Bairro Glória, numa casa assim de padres, ou freiras. Até tirei foto com ele, mas depois perdi no celular, talvez esteja na nuvem. Aí contei para ele, e ele se lembrava do fato, e dava risada! Eles fizeram o culto porque a mãe do meu pai era uma senhora muito importante no meio da Igreja, e resolveram atender ao pedido dela.
Embora não tenha convivido com ele, só nos encontros, em conversas rápidas, o meu primeiro pastor foi ele, fui apresentada na igreja por ele.
(25)Presidente da Sociedade Metodista de Mulheres da
Igreja Metodista de Canoas/RS
Perguntei ao vovô
Edgar Betts(26)
Em certa ocasião perguntei a Vovô, também conhecido como reverendo João Nelson Betts, sobre a vida eterna e a sua fé. Ele me sentou a seu lado em seu escritório e num papel desenhou um homem. Do homem fez uma linha representando sua vida até sua morte terrena. Vovô me disse: “Se este homem vive sua vida sem fé em Deus, crendo que sua vida acabará quando morrer, então sua vida acabará naquele momento. Porém se o homem vive sua vida com fé em Deus, sua vida não termina com seu corpo indo à terra, mas seu espírito viverá para sempre e terá a promessa da vida eterna.”
Esta experiência com meu avô mudou a minha vida! Me deixou pensando por muito tempo sobre o significado da vida e porque estamos aqui. Meu avô dedicou sua vida a servir a Deus e a seu próximo, compartilhando a palavra de Deus com uma fé contagiante que tocou a todas as pessoas que tiveram o privilégio de interagir com ele. Ele tinha um amor incondicional pelas pessoas e mostrava o grande valor que cada ser humano traz a este mundo.
Hoje me encontro alegre sabendo que meu avô através de sua fé inquebrantável em Deus conquistou a vida eterna. Seu espírito está vivo em cada um de nós.
(26)Edgar Betts – neto do homenageado
